domingo, 8 de agosto de 2010
Pensando as ruas em Barra de São João
Apontaremos a partir deste texto, como se constrói o ato de passear, ou melhor, “flanar”, ao pedir licença ao poeta João do Rio para sua forma de olhar para a “rua”, e desta forma nos permitir rever a História de Barra de São João a partir de um olhar mais atento.
Este olhar para a rua deve nos remeter ao passado e ao presente observando e imaginando as praças, os monumentos, detalhes nunca vistos antes, ou com outro olhar sobre a mesmice, repetida tantas vezes sobre um lugar privilegiado que é Barra de São João e adjacências, que não existe apenas pela sua importância turística, mas de como é possível construirmos a nossa História a partir de um olhar mais atento, por lugares que, sem querer, ainda não passamos ou não olhamos mais profundamente.
Dessa forma, João do Rio define o sentido que dá ao ato de “flanar”:
“ é preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidade e os nervos com perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquela que chamamos “flaneur” e praticar o mais interessante dos esportes - a arte de flanar. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua: O que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí de manhã, de dia , à noite, meter-se na roda da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos, o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde...”(RIO,2007)
Em relação a Barra de São João, é preciso levar em conta o momento que João do Rio escreve, ao considerar a rua um lugar essencial para “flanar”. Ele viveu no ano de 1904, onde as construções estavam arruinadas e seriam derrubadas para dar lugar as obras de Pereira Passos no centro do Rio de Janeiro. Eram ruas com alguns cortiços que seriam alvo dos projetos higienistas e turísticos dos governantes. Estas são ruas que o autor reflete as construções coloniais em ruínas.
A imaginação e a rua caminham juntas, é assim como a História. Prover a realidade de sentido é, ao mesmo tempo observar o que existe e imaginar de que forma, como, quando e onde existiu e como pode vir a ser ( muito melhor!)o lugar que vivemos.. Dessa forma, definir o que é o espaço da rua, é definir o que não é possível definir, sem que com isso observemos a História como olhar da imaginação. Além disso, o olhar da poesia de Casimiro de Abreu pode nos ajudar, mas sem torná-lo único, pois podemos pensar e passar pelas ruas de Barra de São João com a alma da imaginação de muitos e verificar em nosso dicionário Aurélio: Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia.
E João do Rio define:
“A rua tem alma”. “A rua é agasalhadora da miséria.”
“ A rua continua , matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros.”... “A rua faz celebridades e revoltas...” (RIO,2007)
No século XIX, a casa era governada pela mulher, a propriedade era governada pelo homem, mas até os dias de hoje, a rua continua sendo o lugar da sedição, da manifestação e da rebelião. Para Ilmar R. Mattos, Professor de História, a rua é o lugar da liberdade.
Para João do Rio, a rua nasce, como o Homem, do soluço, do espasmo:
“A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano.” (RIO,2007)
“Há suor humano na argamassa do seu calçamento.” Toda construção tem a marca humana. Nada está desprovido de uma História. A rua desvenda quem a planejou, quem passa por ali e onde ela leva.
“ A rua sente nos nervos essa miséria da criação e por isso é a mais igualitária , a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todos os lugares comuns.” (RIO,2007)
João do Rio continua definindo a importância de admirar, ou flanar pelas ruas sem compromisso com o seu fim, mas refletindo sobre cada passo, sobre os acontecimentos nestas ruas:
“ A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há despertar triste e quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é , no encanto da vida renovada, no chilear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos” (RIO, 2007)
Novamente João do Rio nos remete ao lugar do imaginário, desta vez comparando com as possibilidades de pensar: o que fazer na rua? Por quê? Como? Quando? De que forma? E o que será da Vida sem a esperança, sem o olhar das possibilidades múltiplas num lugar comum e igual para todos, como a rua?
Podemos fazer esta comparação, verificando o lugar da memória e do esquecimento, ao relacionar as grandes construções com a importância das ruas que as cercam, enquanto as ruas que nascem sem grandes monumentos, ou são lembradas apenas em romances e poesias, mas que precisa refazer a História do seu povo, de quem ainda não foi visto, pensado, estudado ou imaginado por trás das construções que nos impõe lembrar alguns atores históricos e esquecer outros.
Porque os agentes sociais lembrados, se relacionam com a História das elites? E a História de quem construiu tudo isso? E quem Manteve o meio ambiente resguardado das construções capitalistas? Onde está a memória dos nossos povos? E as maiorias? Os camponeses? Os indígenas? Os negros que trabalharam nas grandes fazendas (latifúndios?) Quem são estas pessoas tão comuns?
Ainda nos lembra João do Rio,os meninos que vagavam pelas ruas:
“ ambíguo com saltos de felino e risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nunca teve preocupações, criatura que pede como se fosse natura pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos aos males da cidade, poeira d’oiro que se fez lama e torna-se poeira – a rua criou o garoto!” (RIO,2007)
Se a memória de nossos avós continua a reviver o passado remoto e por isso mais prazeroso, hoje em dia lidamos com a linguagem “big brother”, na qual permitimos as câmeras, ou mesmo a adoramos. Não podemos Esquecer que apesar das tecnologias, não devemos perder a liberdade de andar viver e usar todas as tecnologias em nosso favor e não a favor de alguns interesses. E a liberdade? O que seria isso? Pergunto novamente.
Sem ter objetivo de concluir, pudemos observar como João do Rio relacionou a rua com a possibilidade de saber, de fazer e de construir nossa própria história, trilhar nosso próprio caminho. Caminhar e pensar sobre onde estamos, e qual o sentido de caminhar, e se quisermos ir além, precisamos nos revestir deste olhar e pedir licença ao poeta para flanar, que significa um pouco mais que passear, ao refletir sobre a História de onde estudamos e/ ou moramos com os olhos de quem caminha em direção ao encontro de uma outra História. Melhor, igual, e coletiva.
Fabíola Camargo
* RIO, João do. “A alma encantadora das ruas” In http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000039.pdf
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