domingo, 22 de janeiro de 2023

Sobre meu encontro no Quilombo de Palmares

 

Eu conheci a Gameleira Branca na Bahia quando fui ao forte de Garcia D' Ávila na Bahia em 2018. Essa foi uma das primeiras sensibilidades que afloraram em mim diante de um monumento natural de tanta intensidade. O candomblé já havia me encontrado nesse caminho sensível. Com a ida ao Quilombo de Palmares senti algo mais... Foi algo que gritou em mim, e como filha de Oxum com Iemanjá, desaguei. Senti de ir atrás e trago agora em registro. 

A Gameleira Branca é uma árvore de origem africana. Iroco em iorubá, é orixá do candomblé Queto. No Brasil, Iroco é associado à Gameleira Branca e Corresponde ao vodum Locô no candomblé jeje e ao inquice Tempo no candomblé banto. Iroco, orixá da Gameleira Branca  representa o tempo, a essência da criação, o poder da terra.

 A Gameleira Branca  foi plantada em  Palmares há  mais de 400 anos. Esta imponente árvore, no coração do Quilombo de Palmares, hoje possui um casco grandioso, velho, muito forte e resistente, que traz em seu interior sabedoria  e memória ancestral...De dentro deste casco velho, cansado, cheio de memória  e sabedoria ancestral, é possível ver no interior de seu casco, um pequeno galhinho  que nasce  dentro da velha gameleira,  com folhas pequenas, novinhas e verdinhas. Protegida pelo grande casco, ela cresce imponente junto com mais três troncos novos de dentro dessa grande gameleira branca. 

Podemos aprender e interpretar isso de diversas formas, mas essa árvore primordial do quilombo de Palmares, é uma chave sensível para mim em diversos acontecimentos históricos muito atuais. Fui professora de Marielle Franco em 2003 no Pré Vestibular comunitário na Mangueira. Sofri com seu assassinato. Nunca consegui tirar esse nó da garganta. Sou professora da Rede pública por opcão, por mais que seja absurda fazer uma opção dessas em dias como de hoje. O que sinto e me inspira nesse encontro é que a sabedoria ancestral da grande gameleira branca inspira  aprendizagem sobre o nosso papel em relação as novas gerações de Gameleiras, para que nasçam com seus galhos fortes, protegidos e acolhidos por muita sabedoria e Axé....Precisamos muito fazer uma Palmares de novo.

                                                                                              Fabíola Camargo.


                           

domingo, 11 de setembro de 2022

Industrialização e a caça às bruxas

 


A industrialização na Europa se deu a partir do século XVIII e frequentemente é denominada Revolução Industrial. No entanto, estudos recentes apontam que houve apenas transformações técnicas que aprofundou desigualdades e não ampliou o poder político das maiorias. Sem melhoria de vida, tiveram a tecnologia favorecendo a acumulação de capital apenas para uma classe social – a burguesia nascente. 

Neste período houve uma transição no modo de vida da população que vivia do cultivo dos campos livres pelos servos-camponeses nos feudos medievais para um processo de cercamento dos campos, também denominado “privatização dos campos livres” que por sua vez, levou a expulsão dos servos-camponeses das suas terras e casas para as fábricas. 

Nestas fábricas os artesãos foram desapropriados de suas tecnologias que antes era usada em suas casas e que foram levadas para as fábricas, com mulheres e crianças, que também passaram a trabalhar e muitas vezes morar nas fábricas, despejadas de suas terras com o aumento de aluguéis, guerras frequentes e epidemias, nascendo uma nova classe social – o proletariado.

                                                       https://www.estudopratico.com.br/caca-as-bruxas/

Paradoxalmente, os servos-camponeses conquistaram direitos ao longo da idade média, como foi o caso das mulheres, que por exemplo, conquistaram uma pensão quando engravidavam. Nas fábricas, além de perderam suas casas para as indústrias, perderam também direitos mínimos de sobrevivência. 

As consequências foram o aumento dos preços dos alimentos, o disciplinamento violento dos corpos por parte dos donos das fábricas, a perda de moradia e de direitos.

 Além disso, o estado absolutista em sua aliança com a igreja, passou a promover a caças às bruxas como forma de disciplinar corpos impondo regras matrimoniais e promovendo a eliminação do corpo feminino com a prostituição, a violência sexual, o terror com castigos físicos, tais como agulhamento, queimaduras, raspagens e  morte na fogueira.  

Para as  mulheres europeias neste período, foi imposta a hierarquia social e de gênero, criando-se uma visão eurocêntrica exportada para o mundo com a desigualdade,  escravidão,  misoginia e  racismo.

Ouça também  no spotify:

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Fontes:

Hobsbawn E. Soboul. A. Lefebvre, G. "História, Capitalismo, Transição". Ed. Eldorado, 1974.

Federici, Silvia."Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva". São Paulo: Ed. Elefante, 2017.