terça-feira, 24 de junho de 2025

Alguns povos africanos na Idade Média

 

O Reino do Congo


O Reino do Congo tem como estrutura política os reinos costeiros africanos, cuja característica principal é o Estado com poder centralizado. A unidade da estrutura política do Congo era a Aldeia. Seu núcleo era formado pelos membros de uma mesma linhagem. Acima das Aldeias vinham os Distritos dirigidos pelos Funcionários. Nomeados pelo rei, os governadores das Províncias podiam ser transferidos por ele para outras províncias, de acordo com a sua vontade.
 Além das funções administrativas e judiciárias dos chefes do Distrito, os governadores também cumpriam a função de conselheiros do monarca.
O Rei dispunha de uma guarda permanente composta  por soldados estrangeiros em maioria -os Teke e os Hum que eram pessoas capturadas. Não havia exército permanente, pois, em caso de guerra, cada funcionário territorial apelava aos chefes de suas aldeias, que por sua vez, mobilizavam todos os homens nas zonas de concentração onde era formado o exército. Nessas condições, não era possível manter uma guerra prolongada, por não ser possível  treinamento das tropas.
As receitas do governo vinham dos impostos e do trabalho forçado. O tributo ra pago em tecidos de ráfia, marfim e em seres humanos capturados. Uma parte das receitas vinha também das taxas da alfândega, de multas judiciárias e da pesca real das conchas marinhas, a  nzimbu, que servia  de moeda e o rei detinha  o  onopólio de sua produção e circulação. Um caso único nos reinos africanos.


A estrutura do Reino Congolês se caracterizou por uma centralização política combinada com a liberdade que o soberano tinha para depor  e substituir funcionários ineficazes.
Quando Diego Cão, navegador português, chegou ao Reino do Congo, estava no trono o Manicongo Nzinga Kuvu. Depois de estabelecer contatos  com D. Manoel I, rei de Portugal por volta de 1497, o Manicongo lhe mandou seu embaixador, a fim  de pedir-lhe técnicos, missionários, carpinteiros e pedreiros. 
O embaixador viajou acompanhado de alguns jovens da corte do Manicongo, cuja educação o rei quis confiar às escolas portuguesas. À sua volta de Lisboa, em 1491, o embaixador trouxe missionários, artesãos e exploradores que construíram a primeira igreja onde foram batizados o próprio Manicongo Nzinga Kuvu, sob o nome de João I, e seus familiares, assim como a maioria dos membros da nobreza. Entre os familiares do rei, o seu filho Afonso I, que ocupou o trono em 1506, logo foi empoçado. Como católico convencido, empreendeu a obra de converter a nação inteira. Escreveu ao rei Manuel de Portugal pedindo mais técnicos e missionários. Essa situação levou o rei Manuel a codificar um programa de cristianização e aculturação do Congo, num documento único de sua época chamado Regimento, que seu embaixador levou ao rei Congo em 1512. Neste documento, ele afirmou que os reis católicos são irmãos e, consequentemente, Manuel ajudaria Afonso em sua obra de implantação da verdadeira fé em todo o reino. Figurava, entre outras disposições do documento, a presença do representante do rei de Portugal junto ao rei do Congo, acumulando as funções de embaixador, conselheiro militar, juiz e conselheiro-geral para uma reforma da corte do Congo. O rei e toda a nobreza deviam receber os títulos europeus, usar seus emblemas e seguir as regras da etiqueta portuguesa. O rei, então, receberia autorização para expulsar do reino quaisquer cidadãos portugueses que não levasse uma vida exemplar.
Rei Afonso I

No entanto, o rei Dom Manuel, que não era um idealista, deu-se conta do alto custo que tal programa exigia e solicitou que ficasse a cargo do próprio reino do Congo. Assim, pediu para o seu embaixador que dissesse ao rei do Congo para efetuar os pagamentos em moeda humana, em cobre ou em mafim, para compensar as despesas ocasionadas pelas missões e pela educação em Portugal do filho do rei e de outros filhos da nobreza do Congo. O plano de aculturação não deu certo, por conter muitos problemas. Pois a ajuda portuguesa estava condicionada à exploração econômica do Congo. O rei de Portugal reconheceu o rei do Congo como igual e tomou as providências para que Roma o reconhecesse também como tal e apressou Afonso para que enviasse seu filho para fazer ato de submissão ao papa em nome do reino. Por outro lado, ele quis limitar a autoridade do rei em diversos planos. Quis ter todos os monopólios comerciais e instituir jurisdições especiais para os portugueses que viviam no Congo. No plano religioso, quis-se atribuir todos os direitos sobre a conversão dos povos da África, direitos esses adquiridos pelo Tratado de Tordesilhas. Os fatores externos devido à penetração portuguesa, à luta entre holandeses e portugueses na qual se viu envolvido o Congo, as intrigas entre facções internas e as contradições no seio da própria sociedade desembocaram na dissolução do reino.

Benin

Embora fosse composta majoritariamente pelo povo Edo, acreditava-se ser descendentes de Odudua, logo, devia tributos religiosos a Ifé. Fundada no século XIII, Benin era uma cidade-estado murada que se formou a partir da conurbação de diversos vilarejos próximos. A conurbação é a junção ou fusão de diversas cidades formando uma única área urbana ou região metropolitana. Embora as aldeias de Benin formassem uma unidade política maior, cada uma delas manteve sua estrutura social e seus chefes próprios, o que, com o passar do tempo, causou inúmeros conflitos entre as diferentes lideranças. 

Escultura em bronze de Benin

A unidade política do Benin só foi alcançada quando Eweka passou a governar a cidade como Obá, o chefe soberano e divino. Eweka era filho de Erinuid, uma mulher Edu, com Oranian, filho de Ododua, e, por isso, herdeiro do trono de Efé. Sendo assim, ele cumpria todos os requisitos para ser o soberano de Benin. O rei soberano e divino eram antigos chefes das aldeias que compunham a cidade de Benin, os Usamas, e continuaram exercendo grande poder sobre sua comunidade. Viviam em vilarejos, fora das muralhas da cidade, e garantiam a administração desses locais, com exceção da aplicação da pena de morte, que era um atributo exclusivo de Obá. Dentro das muralhas, o Obá contava com o auxílio de nobres que cuidavam da vida particular do Obá e controlavam as finanças, sobretudo impostos cobrados pela circulação de mercadorias da cidade. A baixa fertilidade do solo fez com que Benin tivesse uma produção agrícola pobre. O inhame era a base da alimentação da população Edo, só que, ao contrário dos demais produtos, era cultivado por homens. A produção de amendoim, do melão, do dendê e dos feijões ficava a cargo das mulheres. Em contrapartida, a localização geográfica de Benin permitiu que a cidade rapidamente se transformasse em um importante entreposto comercial. Produtos oriundos da costa atlântica, como o peixe seco, eram vendidos nos mercados de Benin, que também negociava o inhame, os feijões e a criação de gado da região das savanas. E o sal, que vinha do Saara. A produção do anil era utilizada também no tingimento dos tecidos e era uma produção comum no Benin. Para facilitar este comércio, foi introduzido um sistema monetário composto de barras e manilhas de cobre, pedaços de ferro em forma de arco e cauriz, que era um búzio muito comum no litoral africano.


Mali

O povo Malinquê teve seu primeiro imperador, Sundyata Keita, no século XIII. Seu pai, Naré Famagã, recebeu o caçador com poderes divinatórios e disse que o rei teria um filho com uma mulher muito feia e este filho seria muito poderoso. Pouco tempo depois, o rei se casou com um sologão, conhecido pela sua feiura. Desta união nasceu um menino aleijado e incapaz de andar, e teve como nome Sundiata Keita. O menino e a mãe eram frequentemente ridicularizados pela corte. Cansados de serem ridicularizados, Sundiata apoiou-se numa barra de ferro e milagrosamente começou a andar. Após a morte de Nare Famagam, seu pai, o filho primogênito, Dankaran Tulman, subiu ao poder com sua mãe Sasoma Bateré e desrespeitou a vontade do pai sobre a chegada de Sundiata ao poder.Sundiata e sua mãe foram obrigadas a fugir por conta da perseguição do irmão. Sundiata, porém, chegou à cidade de Mema, longe do reino dos Malinquês. Lá tem sua bravura e coragem reconhecidos. Enquanto isso, no reino Malinquês, sofre ataques constantes do reino Sosso, e por isso Dancaran Tuma foge e o povo Malinquês pediu ajuda a Sundiata. O reino Sosso tinha Sou Maoro Kantê à frente de um exército poderoso que fazia imune às armas de ferro. Sundiata saiu derrotado algumas vezes. Sua irmã, Nana Triban, foi obrigada a casar com o rei Sosso, mas o rei Sosso era vulnerável a galo branco e Sundiata sabia deste ponto fraco. Sundiata fez então uma flecha com a espora de um galo branco e enfrentou o seu inimigo. Na batalha denominada de Batalha de Quirina, em 1235, atingindo-o com uma flecha. Sundiata foi então coroado e se tornou rei dos Malinquês, iniciando a Dinastia de Mansas no Império Mali.O Rei Manza usava o ouro na cabeça, chamado de solidel, além de colares e pulseiras de ouro. A nobreza de Mali era responsável pela administração do império e o pagamento de impostos dos aldeões. O exército era responsável pelas conquistas do império e chegou a ter 10 mil homens, dividido entre cavalaria, arqueiros, dos quais a maioria era escravizado. Os não escravizados tinham influência política no governo, sendo generais que usavam espadas, capacetes, cotas de malhas e cavalos com produtos importados da Europa e do norte da África. A escravidão em Mali era parecida com a de Roma, que, ao invés de obrigar povos dominados a viverem de acordo com seus costumes, o Manza preferia respeitar diferentes culturas que compunham o seu império, desde que pagassem impostos. Assim, o império Mali era composto por dezenas de cidades-estado, pequenos reinos e milhares de vilas e aldeias, o que garantia estabilidade para o império. Mali também tinha homens livres que formavam castas de ferreiros, carpinteiros e artistas, que trabalhavam com barro e metais. A produção de ouro era feita com técnicas centenárias e estavam sob o domínio do império Mali.


                                             Sundiata Keita, o Rei Leão

A maior parte da população era de agricultores, pescadores e pastores que viviam no campo em pequenas casas de barro com telhado de palha. Cultivavam o milete e o sogro. Além do arroz, criavam bois, cabras, camelos e também pescavam, com os quais pagavam tributos ao governo para pagamento da água, coleta de lixo, entre outras coisas. Haviam escravizados também que trabalhavam a agricultura em Maliquê. Eram obtidos nas guerras realizadas pelo exército, empregados nas fazendas do mansa. Quem se tornava exímio guerreiro e jurasse fidelidade ao império era realocado no exército de Mali. O ouro foi a maior riqueza de Mali. O mansa controlava as minas de ouro e as redes de comércio que levavam o ouro até o deserto de Saara, onde era levado para o norte da África e de lá para a Europa e Oriente Médio. Essa mesma rede voltava com sal, contas de vidro, tecidos e alimentos que os mais ricos consumiam. O sal era para os camponeses também, no preparo e conserva dos alimentos, além do tingimento dos tecidos. Os povos das aldeias trocavam milhete e arroz por peixe seco produzido no litoral. A partir do século XIII, as relações comerciais com o norte da África aumentaram. Sundiata Keita seria ou não islamizado. A tradição oral aponta que ele era um rei mágico que usava forças da natureza e dos antepassados para governar. O sucessor de Sundiata, o Mansa Uli, já professava a fé muçulmana e fez peregrinação à Meca no século XIII.

Mansa Uli passou a controlar as cidades de Gaô, Oualata, Tombucto e Dijanê, ampliando o comércio. Mas Mansa Musa foi o mais conhecido imperador islamizado do Mali, saindo de Mali com 70 mil servos e quase duas toneladas de ovo e distribuiu no Egito, levando o luxo que encontrou e desvalorizando seu ouro. Terminou sua peregrinação com o empréstimo do Cairo. Com o Egito, ampliou compra e venda de escravos. Com o Reino, fez, que é o atual Marrocos, ampliou relações diplomáticas, enviando ulemães, que eram sábios religiosos, juristas, professores, segundo o Alcorão, e Mansa Musa trouxe o arquiteto do Egito para construir mesquitas no Mali. Corrija. Mansa Musa trouxe arquiteto do Cairo para construir mesquitas no Mali, além de roupas, turbantes, cultura e educação árabe das universidades. Mesmo assim, a maioria da população do Mali continuou cultivando aos seus antepassados e seus deuses e entidades divinas. Continuaram a vestir couro e algodão bruto. Os diulas, feiticeiros que eram respeitados por curar doenças, resolver crimes e problemas jurídicos, o Mansa Musa respeitou, realizando julgamentos de acordo com a crença da pessoa em questão, respeitando os diferentes credos. A expansão territorial de Mali trouxe problemas aos sucessores de Mansa para o controle das fronteiras do Império. Já no fim do século XIV, as cidades de Gaô e de Genê ficaram independentes de Mali. Houve também saques em Tombuctu. No século XV, os antigos territórios controlados pelo Mali deixaram de obedecer aos mansas até os últimos anos do século XVI.


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Fontes:

SANTOS, Ynaê Lopes Do. História da África e do Brasil Afrodescendente. Faperj, Ed Pallas, 2017.

MUNANGA, Kabengele e GOMES, Nilma Lino. Para entender o negro no Brasil de hoje: História, Realidades, Problemas e Caminhos. Ed. Ação Educativa, 2006.

LOPES, Nei. História e Cultura Africana e Afro- Brasileira. Ed. Barsa Planeta, 2008.

https://www.megacurioso.com.br/educacao/122625-sundiata-keita-o-heroico-rei-leao-que-fundou-o-imperio-mali.htm

https://suburbanodigital.blogspot.com

https://pt.wikipedia.org/wiki/Reino_do_Congo


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