A invenção da modernidade e a cultura popular: O caso da ciranda
Com o Iluminismo, os intelectuais da modernidade e o surgimento do proletariado enquanto uma nova classe social, deu espaço para a valorização das formas simples e o interesse pela poesia, contos e música popular. Isto ocorreu no momento da formação dos estados nacionais e das identidades nacionais. Nessa ocasião se deu o resgate das tradições populares.
O Historiador Peter Burke estudou a História do interesse pela cultura popular entre os séculos XVII e XIX como resultante do desenvolvimento da industrialização e da modernidade que se consagrou na Europa. O contexto do Iluminismo e a descoberta ou a invenção da cultura popular em oposição a cultura erudita, se deu por parte dos intelectuais alemães em fins do século XVIII no momento em que a cultura tradicional tendia a desaparecer com o impacto da Revolução Industrial.
A cultura popular preocupa-se com a inter-relação de saberes diversos, preocupando-se com as permanências, ou seja, o que continua no interior do processo histórico na cultura das maiorias.
No Brasil, a cultura popular era muito forte entre os séculos XVII e XIX, principalmente em relação a produção cultural dos negros nas festas oficiais e de rua e no dia a dia com uma tradição musical bastante inventiva.
Muitos membros das elites relataram a cultura popular dos negros no Brasil neste período. Este foi o caso de Francisco de Paula em
“ Minhas Recordações” além de Jean Batist Debret como alguns exemplos. Os batuques, ranchos, folguedos, capoeiras, maracatus, cirandas e jongos eram relatos ou imagens constantes sobre este período.
A ciranda possui origem na tradição das maiorias. Quando os homens iam pescar, suas mulheres ficavam na beira da praia aguardando com seus filhos, os maridos voltarem. Da espera nasceu a ciranda. A rainha da ciranda é Lia de Itamaracá, de Olinda, e até os dias de hoje é uma arte cultivada em diversos lugares do Brasil e do mundo.
Difundida em todo o Brasil, é uma dança dos trabalhadores rurais. A ciranda é considerada uma dança da cooperação, da solidariedade, da igualdade, da socialização, do conhecimento e da inclusão. Quando uma roda de ciranda é criada, apenas o movimento coletivo é que faz esta roda girar. Podemos dizer que a ciranda representa a roda da Vida. O Planeta Terra gira em torno dos astros. A História dos Seres Humanos é feita do movimento em ciclos: ora rompe, ora continua. A Natureza que tanto dependemos, nos surpreende a cada dia com o grande ciclo de transformações: Interação e conflitos impostos pelos Seres Humanos com a Natureza gira. Tudo gira. E nesta grande roda da Vida, podemos conhecer um pouco de nossa História, dos nossos Valores, e da nossa Cultura.
A tradição popular nos dias de hoje, está relacionada aos anseios e desejos de toda a coletividade.
Diferente da cultura de massas, quando consumimos o que é feito por outros, e nos deixamos influenciar pelos programas do estilo “big brother”. Esta ideologia fabricada para as massas, possui objetivos bem definidos: convencer simbolicamente que podemos vigiar a intimidade alheia.São esses os Valores que precisamos renunciar ao des-ligarmos a TV. Para as elites devemos ter o papel de vigiar e punir e sermos punidos em nossa intimidade. Um exemplo muito comum é quando não mais nos indignamos com a repressão em lugares pobres, como a invasão das casas de pessoas humildes.
Trata-se de um produção técnica para atender os desejos das elites e para ser consumido. Produzida nos laboratórios e nas indústrias capitalistas para a alienação, despolitização e desumanização das maiorias, leva a violência na sala de aula, onde fazemos do lugar que nos pertence, uma praça de guerra.
E então, quem somos nós quando nos olhamos no espelho? Identificamos-nos com a cultura das elites ou podemos construir nossa própria cultura?
Eis alguns valores presentes na ciranda: A cooperação: é uma relação baseada na colaboração entre indivíduos ou grupos para alcançar objetivos comuns. A cooperação opõe-se à competição. Somente por meio da união entre iguais, o ser humano remove obstáculos que se apresentam na vida. Ética: se refere ao conhecimento que o ser humano adquire na sociedade e guia sua ação moral da vida. Moral: significa costumes e regras que determinam a Vida. Indica normas e os valores que orientam o ser humano para a convivência social. Cada coletividade comunga valores morais diferentes. O exemplo mais comum de coletividades com moral diferenciada se refere aos valores das elites e os valores das maiorias excluídas do poder.
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